Fifa: uma eleição difícil de vencer; as filiadas nanicas e as subvenções

Foto: Alexander Hassenstein - FIFA/FIFA via Getty Images

Foto: Alexander Hassenstein – FIFA/FIFA via Getty Images

A Fifa e a corrupção do futebol foi o grande tema da semana. Pessoas do alto escalão foram presas, entre elas, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin. No fim, a semana terminou com mais uma reeleição de Joseph Blatter. Duas ferramentas ajudam a manter um presidente da Fifa no poder: o número gigante de filiados e as subvenções a confederações e associações.

A lista de federações nacionais filiados a Fifa é maior do que a de países filiados a ONU. Muitos sequer são nações independentes ou possuem alguma tradição no futebol, mas elas têm o mesmo voto de Brasil, Alemanha, Itália e outros campeões mundiais.

O site Exame trouxe essa lista no ano passado, de 20 países que só são independentes na Fifa: Anguilla (ilha caribenha pertencente ao império britânico), Aruba (ilha próxima a Venezuela, pertencente aos Países Baixo), Bermuda (ilha caribenha pertencente ao império britânico), Curaçao (antiga Antilhas Holandesas), Guam (ilha estadunidense), Hong Kong (pertencente a China), Ilhas Cayman (paraíso fiscal caribenho pertencente ao império britânico), Ilhas Cook (ilha da Oceania vinculada a Nova Zelândia), Ilhas Faroe (pertence a Dinamarca), Ilhas Virgens Americanas (pertence aos EUA), Ilhas Virgens Britânicas, Macau (pertence a China), Montserrat (ilha caribenha pertencente ao império britânico), Nova Caledônia (arquipélago na Oceania), Palestina, Samoa Americana (ilha na Polinésia), Taiti (maior ilha da Polinésia Francesa), República da China (Estado que administra Taiwan, apesar de a China o considerar seu território) e Ilhas Turks e Caicos (território britânico próximo ao Haiti). Sim, são 19 países nesta lista.

Porto Rico é a 20ª, um caso à parte. Estado livre associado aos EUA, decidiu por 65% do votos, no plebiscito de 2012, se tornar o 51º estado norte-americano, mas essa oficialização ainda depende de aprovação do Congresso dos EUA.

Se olharmos a lista completa de filiados a Fifa, notaremos que a maioria é completamente insignificante no mundo do futebol. Mas é aí que mora o grande trunfo de quem comanda a entidade. Elas são muito importantes nas eleições da entidade. São 209 votos secretos com o mesmo peso.

Votos por confederações continentais:
UEFA = 53 federações
CAF (África) = 54 federações
OFC (Oceania) = 11 federações
CONMEBOL (América do Sul) = 10 federações
CONCACAF (resto da América) = 35 federações
AFC (Ásia) = 46 federações

Esse ano, por exemplo, a UEFA fez campanha forte a favor do príncipe jordaniano Ali bin Al-Hussein, favorito também dos Estados Unidos. Mas as ilhas caribenhas e a maioria dos países asiáticos e africanos foram pró-Blatter.

A principal moeda de troca da Fifa é o Programa de Assistência Financeira, repasses feitos a confederações e associações para o “desenvolvimento do futebol”. No livro “Um jogo cada vez mais sujo” (Panda Books, 2014), o jornalista britânico Andrew Jennings conta que o Relatório Financeiro da entidade mostrou um gasto de US$ 177 milhões para “desenvolvimento do futebol” do total de US$ 1,166 bilhão, a receita da Fifa em 2012.

Há também os projetos de fomento ao futebol. Com o apoio de Jeffrey Webb (Ilhas Cayman) e Jack Warner (Trinidad e Tobago), Blatter, por meio da Fifa, ajudou a financiar reformas de estádios e construções de centros de excelência no Caribe, principal bloco de apoiadores do presidente reeleito.

A CBF também gasta parte de suas despesas com subvenções as federações estaduais, R$ 31.583 em 2014, segundo seu balanço financeiro. Nada ilegal. Algumas vivem praticamente só disso e dos 10% da renda bruta das partidas. Mas é interessante lembrar que as federações representam 27 dos 47 votos (os clubes da primeira divisão também votam) na eleição para presidência da entidade.

Um Del Nero na mira separa Delfim da presidência da CBF

Foto: Ronaldo Silva Jr/Jornal Diarinho

Foto: Ronaldo Silva Jr/Jornal Diarinho

Parece questão de tempo para Delfim Pádua Peixoto Filho, presidente da Federação Catarinense de Futebol (FCF) há 30 anos, assumir, nem que seja interinamente, a presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Com o afastamento de José Maria Marin, Delfim passa a ser o vice-presidente mais velho da CBF, portanto, o primeiro da linha sucessória da entidade presidida por Marco Polo Del Nero.

Claro, isso só acontece com a renúncia ou afastamento do ex-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF). Mas isso não é nada improvável de acontecer no andamento das investigações do FBI. O documento de 164 páginas da justiça estadunidense detalha, sem citar muitos nomes, a ação de muitos corruptos do alto escalação do futebol mundial, a maioria ligados a Fifa. Principalmente no esquema de propinas de empresas de marketing na compra de direitos de transmissão e lavagem de dinheiro.

Um trecho do documento diz que o Co-Conspirador 6 avisou ao Co-Conspirador 2 que o pagamento de propina negociado com o Co-Conspirador 11 de R$ 2 milhões teria que ser dividido com outros oficiais da CBF, entre eles, José Maria Marin e o Co-Conspirador 12. Foram transferidos US$ 500 mil dólares da “Sports Marketing Company 2” no dia 5 de dezembro de 2013 e US$ 450 mil da Traffic no dia 23 do mesmo mês. As dicas dadas durante o documento fizeram o site Trivela cravar que o Co-Conspirador 6 é Kléber Leite (ex-presidente do Flamengo e dono da Klefer), o Co-Conspirador 2 é José Hawilla (fundador da Traffic), Co-Conspirador 11 é Ricardo Teixeira e o Co-Conspirador 12 é Marco Polo Del Nero. A “Sports Marketing Company 2” seria a Klefer, de Kléber Leite.

Se as informações estão corretas, não vai demorar para Del Nero ser envolvido. E essa não é a única citação dele no documento. Talvez seja esse o motivo da saída precoce do presidente da CBF do Congresso da Fifa, antes mesmo da eleição da presidência. Ainda sim, não acho que uma possível queda de Del Nero seja rápida.

Delfim tá na dele. Nas entrevistas defende e diz acreditar na inocência de Marin e Del Nero. Também diz estar pronto para assumir a entidade caso seja necessário. Em entrevista ao radialista Zélio Prado, falou que só assumiria a CBF se fosse algo temporário, provisório, onde conduziria uma nova eleição. Um mandato permanente o obrigaria a deixar a Federação Catarinense, onde ele tem mandato até 2019. Também acho que ele não iria. Além de ter que largar tudo aqui, a presidência da CBF não é hoje o cargo mais desejado por ninguém. Os holofotes estão todos lá.

Revolução impossível

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Não gosto de ser pessimista. É sempre mais fácil pensar positivo. Mas não dá para acreditar numa revolução do futebol brasileiro com quem está lá. E quem vai entrar no próximo mandato: Marco Polo Del Nero e seus vices. Algumas reformas pequenas podem acontecer, afinal, aconteceu o maior vexame da história do futebol brasileiro. O que aliás, não pode ficar só na conta dos jogadores e da comissão técnica.

Uma revolução no futebol mudaria a forma de encarar o jogo, priorizar a formação de atletas e um novo modelo de gestão. Como acreditar que isso vai acontecer com essa turma aí de baixo, eleita como chapa única para o próximo mandado a frente da CBF. O mais novo é afilhado político de Renan Calheiros e filho de cartola.

Tempo de cartolagem:
Marco Polo Del Nero – 26 anos desde que assumiu a vice-presidência da FPF
Delfim Pádua Peixoto Filho – 29 anos como presidente da FCF
José Maria Marin – 32 anos desde que assumiu a presidência da FPF
Fernando José Macieira Sarney – 16 anos desde seu primeiro cargo na CBF
Gustavo Dantas Feijó – 6 anos como presidente da Federação Alagoana
Marcus Antônio Vicente – 20 anos como presidente da FES
Total: 129 anos, não contando cargos dentro de clubes. Média de 21,5 anos por pessoa

Temos uma Confederação de futebol cada vez mais rica, mas com os clubes passando por problemas financeiros grandes, afundados em dívidas. Essa entidade administra também TODAS as competições nacionais e o que temos? Um campeonato de partidas sofríveis e média de menos de 20 mil pagantes por partidas. Claro que aí não é problema só dela. Já era a muito tempo pra uma liga dos clubes cuidarem das competições, deixando a CBF com a responsabilidade de distribuição de recursos, fomentadora e reguladora de categorias de bases, seleção brasileira e a arbitragem. Entidades menos inchadas, menos monarquicas e concentradoras.

O novo modelo de gestão passa pela discussão da necessidade e das funções das federações. Mas de mudanças dentro dos clubes. Quando se começou a discutir o Proforte falava-se em perdão das dívidas dos clubes brasileiros (mais de R$ 4 bilhões). O que muitos clubes fizeram? Aumentaram essa dívida, passaram a gastar mais, afinal, ela seria perdoada depois. Graças a Deus, a ideia foi abandonada e hoje se fala em financiamento e facilidades para pagamentos dessas dívidas. Mas isso mostra a mentalidade de muitos gestores do nosso futebol.

É necessário investimento em órgãos como a Universidade do Futebol, valorizar o estudo e o intercâmbio dos treinadores. Não pode mais ser aceitável um treinador dar uma entrevista pré-jogo de Libertadores e confessar que não sabe nada sobre o adversário. Isso não existe mais.

O futebol brasileiro precisa reconhecer que está atrás dos principais campeonatos do mundo e aprender. Não o que eles são hoje, mas como chegaram aonde estão. Estudar se é possível copiar modelos que funcionaram. Já temos algumas propostas de curto prazo como o Bom Senso FC que não tem sido bem recebido pelos mandatários do futebol. Um calendário menos inchado, que respeite férias, pré-temporada, datas Fifas e possibilidades de excursões, para os clubes grandes. E um mínimo de calendário decente para os demais. Um clube de futebol não pode ter três meses de calendário.

Uma maior exigência nas competições menores. As divisões inferiores de Santa Catarina permitem aberrações. Clubes que mudam de cidade várias vezes durante a disputa, não a completam, não possuem sede nem estádio. Mendigam lugar para jogar. Não pagam taxas, arbitragem, jogadores e no ano seguinte fazem um parcelamento das dívidas e são aceitas de novo. Isso são coisas do futebol de um século que já se foi e nem faz tanto tempo assim.

Bom Senso FC: “A Copa vai começar, mas lembre-se…”

Foto: Rafael Antoniutti

Foto: Rafael Antoniutti

No começo da tarde desta quinta-feira eu recebi por e-mail essa mensagem automática do Bom Senso FC, movimento de jogadores profissionais que tentam revolucionar o futebol brasileiro. O lembrete de que mais de mil atletas estão desempregados nesse momento, quando México e Camarões se enfrentam no segundo dia de Copa do Mundo, é para lá de oportuno. Por isso, decidi compartilhar com vocês essa mensagem de um grupo que já ouvi muitas promessas e o apoio de muita gente, mas que até agora viram poucas idéias virarem realidade.

Para cada jogador brasileiro que estiver em campo, temos mais de mil atletas estão desempregados. Isto ocorre porque a CBF organiza campeonatos apenas para 15% dos clubes no país.

Some forças conosco e compartilhe esta mensagem com a sua rede.

Se por um lado o Bom Senso F.C. tem conseguido muitos avanços no que diz respeito ao fair play financeiro – estamos trabalhando em três frentes para implementar nossas propostas, por outro (a bandeira do calendário) ainda precisamos juntar mais força para se fazer valer.

A CBF tem a faca e o queijo na mão para criar um calendário equilibrado para todas as partes, só lhe falta vontade política.

Ajude-nos a mobilizar mais gente para assinar a petição. Com o apoio da torcida, podemos criar um futebol que funcione para todos.

O abaixo-assinado online pode ser assinado neste link.

Uma democracia torta

Foto: Assessoria/FCF

Foto: Assessoria/FCF

Na noite da última segunda-feira houve na sede da Federação Catarinense de Futebol (FCF) a Assembleia Geral Eletiva que deu a Delfim Pádua Peixoto Filho mais quatro anos de mandato. No dia 12 de abril de 2015 ele assume seu sétimo mandato, que vai até 2019, quando terá completado 34 anos à frente da entidade. Mesmo candidato único, se optou por fazer votação secreta.

Mas não é sobre isso o post. O ponto é outro. Participaram da votação 14 clubes profissionais (de 27) e 28 presidentes de Ligas Não-Profissionais (de 43). Abrindo um parêntese gigante… o futebol segue uma hierarquia rígida. Tem a Fifa, entidade máxima, as Confederações Continentais (Conmebol, UEFA, etc) e a Federações Nacionais (CBF, AFA, etc). No Brasil a hierarquia segue com as Federações Estaduais e do Distrito Federal e as Ligas Municipais.

Voltando para a eleição da FCF, notamos que as Ligas possuem as maiorias dos votos. Se todas elas votarem num candidato [não que costume ter mais de um] ele vai ganhar, mesmo que todos os clubes sejam contra. E olha que no Brasil clube contestador é raridade. Vale ressaltar também, que como pode se notar, nenhuma entidade, colegiado ou sindicato ligado a técnicos e jogadores possuem direito a voto. Só não me perguntem porque.

Voltando as Ligas. Elas não só fazem parte estrutura do futebol como subordinadas as Federações, como muitas recebem ajudas financeiras para poderem sobreviver. Em Santa Catarina, pelo menos, as Ligas costumam receber ajuda para a elaboração de projetos para se inscreverem em Leis Municipais de Incentivo ao Esporte. E seus presidentes costumam ser os delegados das partidas nas competições estaduais.

Sobre o processo para lançar candidatura eu não sei falar. Afinal, nunca recebi nenhum material explicando e nem vi release do tipo “Está aberto o prazo para inscrição de chapa para a eleição da FCF”. Então é hora de mudar de entidade. Vamos falar da Confederação Brasileira de Futebol. Para se candidatas a presidente da CBF, essa pessoa precisa da assinatura de pelo menos OITO federações estaduais e CINCO clubes do Campeonato Brasileiro da Série A. Também sem votação de atletas e técnicos.

Esse é um modelo que dificulta a criação de uma candidatura. Também dificulta grandes renovações e sem renovações torna menos provável grandes mudanças estruturais e mais comum grandes reinados.